Visão Médica para o Século XXI

VISÃO MÉDICA PARA O SÉCULO XXI

Cláudio Paciornik - Texto elaborado em 1996

 

Em 1492, grandes descobertas ocorreram.

E os europeus ainda na Inquisição e remanescentes da peste negra, que havia dizimado metade da população da Itália à Islândia, deram o grande impulso ao que se chamou "civilização ocidental".

Isso se deve não só às qualidades visíveis, mas principalmente a um sistema que mais tarde foi denominado sistema imunitário.

Esses europeus já haviam feito grandes cruzadas. Fracassaram e foram dizimados em suas tentativas de estabelecerem-se no Oriente e na Cidade Santa.

Ao entrarem em contato com os povos antigos do Indo, adquiriram toda a sorte de moléstias. Seus reinos do Oriente pouco duraram. Quando há quinhentos anos aportaram na América, não foi o espírito guerreiro, técnica ou conhecimento que venceu um número superior de indivíduos, que tinham uma elaborada cultura, com uma eficiente agricultura, astronomia e medicina. Foi um sistema imunitário cheio de defesas adquiridas, coexistindo com doenças diversas, que ao estar junto com essas culturas desarmadas, provocou o que foi cantado em versos heroicos de feitos militares e versos sacros de catequese. 

Viajavam com sementes, plantas e animais, e grandes trocas ocorreram.

Acharam o ouro, as lágrimas do Sol para os locais, e o levaram para suas terras. Após bruxos e mártires teimosos, queimaram as florestas da Ibéria para fundir o metal.

Travaram guerras comerciais de tempo transcorrido, vemos a expansão continuada dessa civilização, baseada na ilusão da natureza infinita, ou como algo fora, ilimitada, provedora eterna, matéria-prima que nunca acabará considerada como dada, e, portanto não considerada.

O sucesso que cria a civilização ocidental é baseado numa consciência que não se dá conta da finitude da vida no planeta, ou que "coisifica" o vivo, ou numa inconsciência, e por suas doenças e resistências.

As tentativas sociais deste último século, que queriam ser baseadas em cooperação, também fracassam caolhas que são; pautadas na quantificação, terminam em desastres.

Nos últimos 30 anos é que lentamente nos damos conta que os ditos "primitivos", os vencidos, chamavam a natureza de mãe, sendo um com ela, seus espíritos, plantas e animais.

A razão com seus objetos vai sendo desnuda pela descoberta desses atônitos seres do "escuro porão inconsciente", que determina a sua atitude diurna, da função dos mitos, dos sonhos, do pecado projetado e espelhado, de homens que se sentem responsáveis para que o sol siga o seu caminho diariamente pelo céu.

Ao mesmo tempo, bombas que derretem megalópoles são explodidas, guerras com nome de cidades são travadas, nas quais crianças são trucidadas e, como estratégia, mulheres são violentadas. Doenças são vencidas como cidadelas tomadas. E com ingênua surpresa, vemos outras mais complicadas surgirem. O sucesso e a contradição da tecnologia.

Quando chegamos perto de algo, este nos escapa, como o lagarto buscando alcançar a própria cauda.

Chagas sob a forma de tumores aparecem, atingindo cada vez mais pessoas, e com idade cada vez menor.

São cortados, bombardeados, envenenados; alguns cessam, muitos persistem.

Novas descobertas, e de repente, nos vemos num hipotético ano 2000, com uma epidemia que anula completamente nosso já falado sistema imunitário, e para a qual não temos defesa.

Usamos as mesmas armas, o mesmo pensamento. Vamos destruir o que nos ataca.

O que isso tem a ver com as cruzadas, 1500, e conosco quando podemos nos comunicar instantaneamente com qualquer parte do planeta, e em breve ir em duas horas as suas mais distantes plagas?

Ao descobrirmos água na lua, o caminho das grandes viagens e novas descobertas se torna realidade. O grande salto de 1500 volta a se configurar. A matéria-prima está lá no espaço nos esperando para ser explorada.

Colombos, Cabrais, Isabéis reencarnarão. Outras criaturas a serem encontradas...

Nesse momento, uma pausa, um reconhecimento da criatura em seu movimento desordenado, fantoche de duas forças-consciência, com seus feitos, expansões, tecnologias e catástrofes, a do sujeito e objeto da conquista, com sua pergunta típica:

Vamos conseguir? Com seus sonhos, mitos e perfumes, una, só sujeito - Sobreviveremos?

Duas consciências aparentemente antagônicas, tal como duas víboras que se entrelaçando num festim, querendo engolir a outra. Essa imagem precisa do caduceu de Mercúrio, pela qual as duas forças ascendem a outro patamar, tornando-se una. Alado voo.

É o caminho que estamos trilhando. Usando a tecnologia em contínuo desenvolvimento, vamos olhar a intimidade dos corpos e do mundo das formas, e com maneiras menos agressivas resolver problemas.

Num dos lados a medicina ocidental sendo usada para a pessoa, que por sua vez é abordada como sujeito e não como um objeto a ser tratado de uma doença alienígena. Como indivíduo que todo o que vive é parte e é si mesmo.

Dando lugar às medicinas que se baseiam na expressão desse sujeito como a fala da natureza, a educação, honrando o legado de Egeia, ao conhecimento que os "primitivos" nos legaram, abrindo o caminho do coração, o coração iluminando o olhar.