A Homeopatia na Obstetrícia

A HOMEOPATIA NA OBSTETRÍCIA

Dr. Cláudio Paciornik 

" Quero agradecer à Comissão Científica do Congresso pelo convite duas vezes honroso: proferir uma palestra neste evento e discorrer sobre a homeopatia, tema que, a meu ver, em muito pode contribuir para a melhoria da prática da Obstetrícia".

Meu primeiro contato com as concepções que orientam a Homeopatia ocorreu em 1976. Estava atendendo a uma senhora que havia tido uma recidiva de câncer de mama, 10 anos após o primeiro tratamento. Essa paciente, deprimida, teve o recrudescer de seu processo neoplásico, após seu marido ter sido encontrado, de madrugada, assassinado na zona de meretrício em uma pequena cidade. Toda a terapia utilizada nada fez. Meu saber foi insuficiente.

Na angústia de tentar compreender a relação que essa história tinha com a doença e achar um caminho que mobilizasse essa mulher, li o Organon de Ia medicina, de Samuel Hahnemann. Apesar de achar o trabalho contraditório, percebi que Hahnemann tomava em consideração a agressão psíquica que afeta a energia vital. Nas palavras do autor:

No estado de saúde do homem, a força vital autocrática que dinamicamente anima o organismo material, governa com poder ilimitado. (...) Deste modo, o espírito dotado de razão que existe em nós, pode empregar esses instrumentos vivos e sãos para as mais alitas finalidades de nossa existência. (Art. 9, p. 34.)

A força Vital que reside em nosso organismo é ininteligente e instintiva e rege a vida em harmonioso movimento somente quando está com saúde, porém é incapaz de curar-se a si mesmo em caso de enfermidade (p. 34).

Para mim estava aberto um campo de conhecimento, que passei a investigar.

 

AS BASES DA HOMEOPATIA

Samuel Hahnemann, nascido em Meisen (Alemanha) em 1775, foi médico do rei Frederico da Saxônia. Falava onze línguas e era também químico por formação. Desencantado com a então medicina oficial, abandona a prática dessa arte e passa um período de sua vida como tradutor de obras – do grego, hebraico e latim para o alemão.

Buscando alternativas, em 1788, observa que, sem estar doente, ingerindo, produz em si sintomas similares aos produzidos pela malária. Revive, assim, a Lei de Similitude de Hipócrates: Similia similibus curantur – o semelhante cura o semelhante. Usa os remédios que se usavam na época: Belíadona, Arsenicum, Digitalis etc... E comprova a repetição da lei da semelhança. Empregando seus conhecimentos de química continua experimentando outros produtos, como Calcarea ostrearum (pó-da-ostra), Phosphorus, Calcareas phosphoricaKali carbonicum, phosphoricum, metais, o magneto etc.

Com o intuito de diminuir a toxidez para experimentar as substâncias, usa o método de diluição com sucussão. Percebe que, menos tóxicas que as drogas puras então, as doses infinitesimais provocam sintomas mentais, alterações afetivas, sensações, sonhos e medos, antes não relatados. Cria assim a dinamização homeopática, com suas potências.

Com essa experimentação, passa a valorizar a imagem total do doente e não da doença. Dá valor aos sintomas mentais a par dos sintomas físicos, como manifestação da enfermidade do homem. Não há doenças, há doentes. O Homem é o sujeito da doença e não o objeto dela. Para Hahnemann a enfermidade, não vem de fora e sim vai se constituindo ao longo da existência, favorecida pelos antecedentes hereditários, o tipo de vida, sua alimentação, circunstâncias vitais e acontecimentos que alteram o terreno em que se manifestará a enfermidade. Ao individualizar, hierarquiza os sintomas, realçando que os raros e peculiares devem ser valorizados como expressão dessa individualidade.

Ao lado do Organon, que revisa sucessivamente, publica suas experimentações em Maténa médica pura e amplia o conceito de tratamento de doenças em Doenças crônicas. Usa o termo miasma para definir o estado crônico de enfermidade, como uma fogueira permanente, cujas agudizações seriam como as labaredas desse processo. Classifica o miasma como psora (do hebraico estigma), associando-o à supressão dos sintomas exonerativos da pele, a sicosis com a supressão da condilomatose e sífilis com o tratamento local do cancro duro. Reitera a ineficácia de tratamentos locais, porque, após o aparente sucesso, o doente se encontrará com órgãos mais nobres afetados, com alterações mais profundas da energia vital, acrescidas pelo tratamento, e, por muitas vezes, incurável.

Funda, assim, os alicerces da Homeopatia:

As experimentações do remédio no homem são:

• A dose infinitesimal

• A individualização doente como o diagnóstico

• O uso do remédio semelhante "similimum" em dose infinitesimal

• O conceito de energia vital

Foram inúmeros os seus seguidores, que aceitaram parcial ou totalmente seus ensinamentos. Kent, Allen, Boenmghausen, Hering e outros deram continuidade às experimentações, publicando resultados clínicos, aportando novos remédios. Kent e Boeninghausen publicaram um dicionário de sintomas, indicando os remédios afins, com gradação de intensidade, com o intuito de ajudar no trabalho diagnóstico. São os Repertórios, que junto com as Matérias médicas, o Organon, As Doenças crônicas e os escritos desses precursores, constituem a bibliografia básica desta arte.

A prática homeopática foi se desenvolvendo de acordo com a compreensão e individualidade do médico, dando lugar a diversas escolas:

• Unicista

• Pluralista

• Alternista

• Organicista

• Isopatia, etc...

 

HOMEOPATIA E GRAVIDEZ

A gravidez é um momento de saúde para a mulher. Para a criança, a vida intrauterina é a maior escola que ela vai passar. A mulher torna-se mãe; a criança forma não só seu corpo como sua consciência, recebendo as influências da mãe e do pai e por meio destes de seu meio. A ansiedade – Será que meu filho é normal? -, a angústia, a falta de confiança, os ciúmes, as alterações da libido, a mortificação, o medo de morrer durante o parto, a antecipação, a ira, a irritabilidade, juntos e paralelos com o amor, significam sintomas, alterações da energia vital, que, valorizados e individualizados, são corrigidos pela terapêutica homeopática, o bem estar, o "eu me sinto bem".

Iniciamos nosso trabalho nessa área em 1981, quando demos a 50 pacientes em trabalho de parto dois remédios Caulophilum, uma planta muito utilizada por índios norte americanos no trabalho de parto, e uma flor Gelsemium sempervirens, na dinamização homeopática centesimal 6, em doses repetidas, com o intuito de aceleração do parto.

Não achamos diferença significativa com o grupo controle, mas dois casos, primigestas com 35 e 40 anos, que deram entrada no hospital com dois centímetros, tiveram seus partos normais em 4 horas. Apresentamos esse trabalho no Congresso Brasileiro de Acupuntura, em Recife, com o título "A analgesia e a aceleração do parto através da quimiopuntura e da homeopatia" (Paciornik, Cláudio e Assenheimer, Élida). Com esse trabalho, aprendi duas coisas: os casos em que funcionaram foram aqueles em que as pacientes tinham sensibilidade aos remédios, e que um trabalho dentro da homeopatia tem de ser individualizado para serem obtidos melhores resultados.

Gradativamente, venho usando o remédio homeopático, escolhido de acordo com a individualização do paciente em seu contexto – segundo os limites de meu conhecimento. Inúmeros sintomas menores acometem a gestante, muitos são fisiológicos e de adaptação do organismo ao binômio mãe-feto, como as náuseas, as caibras, a hipotensão, comuns e para os quais a homeopatia tem respostas, com a vantagem de não causar efeitos para o feto – como são os casos do ácido acetilsalicílico no primeiro trimestre da gravidez, da metoclopramida, por tantos anos usados e depois contra indicada, sem falar da talidomida.

Para a mulher que tem dificuldade para engravidar, após sua anamnese e diagnósticos clínicos que houver repertorizamos seus sintomas, valorizando os raros e peculiares, ou seja, individualizando-a, para encontrarmos o seu remédio: Similimum. Tarefa nem sempre fácil, mas que nos apura e amplia a escuta, deixando-nos mais próximos ao tentar compreender quem nos apura.

Esse mesmo remédio pode ser usado durante a gestação, desde que a totalidade dos sintomas continue confirmando a prescrição. Muitas vezes, nota-se que um remédio bem indicado antes da gravidez muda sob a influência do feto, mas após o parto volta a ser útil.

Nas eventualidades que acontecem com frequência no ciclo gravídico-puerperal, podemos lançar mão do repertório para achar o remédio ou remédios (ver anexo repertório de Barthel) que abarque essa situação. Assim teremos, por exemplo:

• As náuseas, comuns no primeiro trimestre, com remédios como Ipecacuanã, Symphoricarpus, Nux vomica etc.;

• Sangramento e ameaça de abortamento para os quais, de acordo com a fase de gestação, usaremos Sabina, Secale cornutum, China etc.;

• Nas alterações da circulação venosa, as varizes e as hemorroidas, encontramos o Aesculus Hippocastanum (castanha-da-índia), a Hamanmelis, Aloé vera Ratanhia etc., que associamos aos cuidados higienodietéticos;

• A excessiva movimentação da criança no útero, como sobressalto, com o único remédio Lycopodium;

• As posições anômalas, Aconitum e Anemona pratensis, recursos que usamos várias vezes com sucesso nas apresentações pélvicas;

• Escutar e corrigir as alterações da energia vital quando se apresentam, fazem a profilaxia da doença hipertensiva da gestação. 

Durante o trabalho de parto, sintomas aparecem e se exacerbam. A Chamomilla, em sua patogenesia (experimentação no homem são), apresenta:

• (...) excessiva sensibilidade às dores, que são intoleráveis, e que a colocam violenta, muito irritável, grita, responde mal.

• (...) não tolera que a toquem, que a olhem, que falem.

• (...) falsas dores de parto, ou dores de parto excessivas, espasmódicas, que a alteram muito, e que vão para cima; o feto sobe em vez de baixar.

• (...) contrações que param ou são fracas.

• (...) rigidez do colo uterino durante o parto.

• (...) contração do útero em relógio de areia.

• (...) lóquios copiosos.

• (...) as dores se agravam pelo calor e pela ira, acompanham-se de sede e às vezes desmaios.

Quando encontramos uma paciente com esses sintomas e uma distocia de dilatação e prescrevemos Chamomilla vemos a agitação e a sensibilidade formarem-se em parto normal.

O trabalho homeopático exige atenção à paciente e conhecimento da experimentação dos remédios, para que, com essa atenção dirigida, tenhamos o diagnóstico, que no caso é o do remédio e não o da distocia. Assim, Gelsemium (jasmim amarelo):

• (...) sensação de ondas do útero para a garganta, que param a contração.

• (...) a criança parece subir a cada dor.

• (...) contração angustiantes.

• (...) rigidez de colo uterino.

• (...) dor nas costas que sobe durante o parto.

Após o parto,

• Resto placentário, assim como no abortamento incompleto, podemos usar o tão bem conhecido dos obstetras, o esporão do centeio, Secale cornutum;

• Na agalactia ou hipogalactia, que a meu ver, é na maioria das vezes iatrogênica, pela separação por motivos fúteis do binômio mãe-filho, que é corrigida com Urtica urens, a conhecida urtiga usada sob a forma de chá pelos Kaigangue e Guarani há séculos;

• As mastites e as fissuras mamilares, com remédio como Hepar sulphur, a Silicia, a Phytolloca etc., dos vários reinos, de fácil manejo, evitando na maior parte das vezes a antibioticoterapia, causadora de resistência, alternado o controle biológico, com metástases para o ecossistema de situação mais difíceis, como vivemos hoje;

• Depressão pós-parto, sensações de vazio, voltamos referir a totalidade dos sistemas para a individualização do remédio, a busca do Similimum.

Poderia derivar falando dos sintomas que o bebê apresenta: rejeição ao leite materno, Silicias, as molestas cólicas, Sena, as febres etc. que tratadas vão ter desfechos mais saudáveis, que a supressão com antiespasmódicos, antitérmicos e antibióticos, que toda droga atua no organismo por um período mais ou menos longo, ação primária. Segue-se a ela uma reação do organismo que é contrária à ação primária da droga, ação secundária. Isto é a expressão da terceira lei de Newton: "a toda ação segue-se uma reação igual e em sentido contrário".

Quando atendemos a uma paciente com abortamentos de repetição, com sintomas que pioram à noite, e encontramos na anamnese um bisavô portador de sífilis – fato comum no século passado, quando se fazia o trocadilho civilização por "sifilização" – com alguns familiares alcoólatras. Tratamos essa mulher com um remédio Luesinum (serosidade de cancro sifilítico) e teremos a oportunidade de ver uma exacerbação dos sintomas, sejam mentais ou outros, seguidos de erupção de pele, com a correção desse estado mórbido.

Exemplos como esse reportam-nos às Doenças Crônicas em que Hahnemann desenvolve a teoria dos miasmas e passamos a entender o que, após uma vida de trabalho e reflexão, ele quis nos dizer como método terapêutico. Espero que eu tenha conseguido mostrar as possibilidades que a Terapêutica Homeopática pode adicionar à Obstetrícia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARTHEL, Horst. Synthetic Repertory Psychic and General Symptoms of the Homoeopathic. Matéria Médica. 2. Ed. Sleep, dreams, sexuality / Will Klunker, Karl F. Haug Verlag Heidelberg v. 3. 1981.

HAHNEMAN, Samuel. Matéria Médica Pura. New Delhi: Jain Publishing Co. V. 1. 1983.

S. Organon de la Medicina. 6. Ed.

S. Doenças Crônicas. PRADO, Maria Isabel de Almeida. A estrutura lógica do Organon.

VIJNOVSKY, Bernardo. Tratamiento homepalico delas afecciones y enfermidades agudas. Buenos Aires: 1979.

VIJNOVSKY, Bernardo. Sintomas-clavede la matéria médica homeopática en el repertório de Kent. Buenos Aires: Editorial Albatros, 1978.