Dona Joana (parteira índia)

  • Posted on: 25 September 2018
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Português, Brasil

– Como é seu nome?

– Joana.

– Dona Joana. Quantos anos a senhora foi parteira?

– Vinte e três anos.

– Fez os partos todos de cócoras?

– Tudo. Eu tava contando prás mulher que eu ganhei oito também. Dois com parteira de fora, né. Mas não adiantava. Daí eu mandava aquelas parteiras embora, vão prá casa de vocês, porque não adianta o serviço de vocês, eu dizia. Daí eu sentava de croque onde eu ganhava o filho, daí eu disse, daqui por diante, parteira comigo nunca mais. Depois daquilo, eu ganhei oito sozinha. Também minhas portas era tudo trancado. E então sentei de croque perto da cama, peguei a beirada da cama e não é que eu virei a cama em cima de mim, de tanta força que eu fiz? E eu com a barriga daquele jeito, quem é que ia tirar o colchão de cima de mim, pra quem é que eu ia pedir socorro? Tive que me virar sozinha; mas eu, graças a Deus, sempre ganhei bem meus filhos. Depois, quando eu disse que ia dar o fora nas parteiras...

– E a senhora fez vários partos delas na reserva?

– Só quando eu ia fora da área, que não era da minha nação. E dai era tudo deitado, mas o parto era mais ruim, mais difícil.

– Mas na sua nação era tudo de croque...

– Tudo de croque, e graças a Deus, tudo foram bem, nunca eu levei uma mulher no hospital, daqui.

– Mas me diga uma coisa: nessas bracas que a senhora ia fazer aí, por que achava que era pior?

– Bom, porque a mulher se esforça o dobro.

– É?

– É sim. Deitada, prá faze força é mais difícil.

– De croque é melhor?

– É, a criança fica mais ajeitada, e nunca deu hemorragia nelas, também.

– Quantos partos a senhora acha que já fez?

– É, mas não tem quantia... Esses que tão aqui, quase a maioria, nasceu nas minhas mãos...

– Da quantos? Duzentos? Trezentos?

– Eu acho que mais...

– Quantos?

– Tem os brancos também... depois andei fora da área tembém... e lá eu atendia tudo igual.

– Mas fazia de croque?

– Não.

– Mas como é que fazia? Me explica, porque nós estamos fazendo agora lá na cidade de croque.

– É, mas não sei se elas vão deixar fazer...

– Ah, deixam, tenho até fotografias, depois te mostro. Como é que se faz? Deixa a mulher de croque só na hora de nascer?

– Primeiro a gente examina ela prá ver se já está na hora. Só quando tá na hora que eu mando ela se acrocar. Antes, não.

– Não precisa?

– Não. De vez em quando a gente faz exame, né.

– E o exame, como é? Põe o dedo lá dentro?

– Sim.

– Aí vê se já está a cabeça lá?

– Sim. Quando a cabecinha já tá perto, daí sim, eu mando acrocar. É uma bala. Pergunta prá essa minha filha aí. Quantos filhos. E tudo os filhos dela nasceu nas minhas mãos. Só esse último foi nascer no hospital.

– Me diga uma coisa: se acrocar antes, faz mal?

– Sim, ela se esfoça muito. É tempo perdido, ela anda forcejando sem ser preciso.

– E a senhora, antes de nascer, deixa caminhar à vontade?

– Sim, antes sim, ela pode caminhar.

– Quanto mais caminhar, melhor?

– Melhor sim. Ficando parada, a mulher fica presa, aí ela fica nervosa. Ora, sentindo aquela dor, então ela não vai ficar nervosa? Então tem que deixar à vontade. Só de vez em quando, quando está frio... Enquanto não apontar o suor dela, não deixa ela forcejar demais. Apontou o suor dela, então já está na hora.

– Como é que é isso? O suor?

– É. Dá aquele calorão na gente. Em todas as mulheres. Então, a cada passinho eu vou botando as minhas mãos na testa dela. Quando aponta o suor dela pode aprontar que está na hora. E nem preciso botar minhas mãos.

– Só de olhar já sabe?

– É sim.

– E as águas, quando arrebenta?

– As mulheres não são tudo igual, tem mulher que agora rebenta aquela água e ainda custa a nascer a criança. Tem gente que leva uma hora, mais de uma hora, depois é que aperta as dor. Daí sim, também daí, o parto fica mais seco... Não apertando, quando rebenta a água, então já nasce a criança.

– É melhor?

– É. A mulher sofre menos.

– Tem casos que arrebenta um dia, dois, antes...

– Esses tem...

– É por o parto?

– Seco.

– Em geral, quanto tempo demora prá mulher, a primeira vez que vai ter um filho?

– A primeira vez? Umas três horas...

– Da hora que começam as dores até teminar?

– Nos dias de hoje não dá mais prá gente marcar, porque tem gente que fica doente às vez de noite, vai, amanhece e anoitece...

– Porque a senhora acha que assim?

– Não sei o que que tem. Porque antes não era assim; hoje em dia, as mulheres sofrem mais!... Não sei se porque as mulheres perderam a coragem.

– Porque ficam muito tempo sentadas, não é?

– Acho que sim.

– Antes, sentavam como? Nos tempos dos antigos, sentavam de que jeito?

– Os antigos que ganhavam mais fácil, agora é mais custoso!

– Sentavam em cadeira? Ou ficavam de croque?

– Sempre de croque, no chão, né.

– É? Será que era por isso que era mais fácil?

– Sim, acho que era por isso.

 

***

 

– Então, um dia uma prima minha ficou doente. Isso foi de manhã, o marido dela veio me avisar que a mulher dele já tava doente prá ganhar filho. Daí eu fui lá, examinei ela, e ainda faltava uma hora. Daí ela disse prá mim, olha prima, me passou tudo as dor, não vou mais ter filho hoje, vou ter daqui alguns dias, ela disse. Não pode, eu disse prá ela. Eu sei que não vou ter filho hoje, ela disse. E me deixa eu ir um pouco ali na minha roça. Daí eu deixei ela ir. E lá eu fiquei bombeando ela, prá ver o que ela ia fazer. Pois ela veio aí, diz que vinha buscar feijão verde. Daí eu fiquei olhando prá ela de lá. Mas ela não demorou muito, quando eu vi ela já vinha descendo. Aqui essa granja de arroz então tava cheio de água por tudo. Ela vinha trazendo uma coisa no vestido, e eu digo, é feijão que ela vem trazendo. Daí eu vim encontrar ela encontrei ela bem ali, ó, daí eu disse, prima, tu juntou bastante feijão? Olha aqui meu feijão, ela disse. Nenê dentro da roupa dela! Daí que eu levei ela pra dentro de casa, passando por toda aquela água! Daí cheguei em casa, já cortei o imbigo da criança, arrumei ela na cama, depois eu fui no mato buscar ervas prá ela não recair, pois ela não recaiu! Até agora parece que ela tá ganhando filho ainda!

– Outra coisa: você cortava o umbigo depois que saía o companheiro?1

– Sim, depois.

– Não tem problema deixar lá dentro quanto tempo quizer?

– Não presta deixar lá dentro. Ela tem que ficar tudo livre, né, prá depois a gente cortar o imbigo, porque às vezes, ele escapa, mas eu nunca deixei escapar. Primeiro fazia nascer tudo, prá depois cortar.

– Nunca aconteceu de ficar um pedaço lá dentro?

– Não, nunca nunca. Mas, eu vejo bem, eu reparo bem, prá ver se não ficou nenhum pedacinho dentro.

– Han han. Mas e se cortar antes, o que acontece?

– Não acontece nada, é que a gente tem que atar aquele pedaço com barbante, e deixar a ............... na perna dela. Mas prá mim, isso nunca aconteceu. Então, quando nasce a criança, eu já tenho chá prá dar a ela. Quando eu vejo que demora, então eu dou aquele chá quente, depois eu boto meu dedo ali, já puxo ele prá baixo. É uma bala também...

– Bota o dedo por cima da barriga?

– É sim, por cima. A gente tem um ossinho aqui, né?

– É.

– Então ele fica imprensado é naquilo. Então bota o dedo aqui e empurra pra baixo e já se vai...

– Onde é que a senhora aprendeu isso?

– Isso eu apredi com a finada minha mãe. Então, daí eu vim embora morar prá cá logo que eu me casei com esse meu velho, então a minha mãe já tava velha, velha bastante, e então daí, altas horas da noite, vieram buscar ela, então ela disse prá mim, olha minha filha, se eles vem me buscar outra vez eu venho te buscar, agora você é que vai ser a parteira da nossa nação. Daí eu fui junto com ela, então, ver aquele parto, então ela disse, Joana, olha, a gente faz assim, assim, ela dizia. E morreu a minha finada mãe, sempre fazendo parto, e nunca aconteceu nada. E daí ela disse: olha, minha filha, daqui por diante você é que atende agora, eu não atendo mais, que ela disse que já tava velha, não podia andar caminhando muito de noite.

– Andava muito à noite?

– Sim. Uma vez o Estado emprestou eu pro Ligeiro, eu fiquei dois anos emprestada. Era seis, sete por noite, e ninguém me ajudava, porque não tinha ninguém que entendesse, né, então, tocava tudo prá mim. Mas eu passei muito trabalho... Então, quando me recolheram de volta, eu fiquei faceira. Porque lá a área é grande, gente bastante, e em vez aqui não, um por mês, às vezes dois por mês... Era fácil prá gente atender.

– Ganhava prá atender, ou atendia por gosto?

– Mas eu, quando era nova, pois eu trabalhei de graça eu trabalhei doze anos assim, trabalhando de graça assim, eu não ganhava nada. Até que eu me queixei pro governo, daí que eles me pagaram o meu serviço, né, agora tou ganhado do estado, sou funcionária do estado. Porque naquele tempo que eu trabalhava aqui, era do estado, depois é que passou prá FUNAI.

– E você, nunca escutou falar, ou deve ter escutado da sua mãe, de mulher que morreu de parto aí pelo mato?

– Não, nunca.

– Muito difícil?

– Elas não viam quando nasciam as crianças. E quando elas viam, as mulheres vinham trazendo as crianças no vestido! Ninguém via a hora que nascia a criança. Assim a minha finada mãe contava, mas ela nunca contou que alguma morreu de parto.

– Mas nenê, morreu muito de parto?

– Não.

– Só quando era fora do tempo, ou também não?

– Eu aqui, olha, do meu tempo, ninguém abortou. Não nasceu uma criança fora do tempo.

– E as beberagens? Nós, lá a cidade, usamos um porção de remédio: prá pressão baixa, prá pressão alta, nós sabemos da concorosa, duma e doutra coisa...

– Isso não é prá parto...

– É prá uma ferida, não é?

– É. Ferida braba. E eles tem umas misturas deles, não é só ele não.

– Mas, como é que vocês usam os remédios? Antes do parto, durante ou depois?

– Antes a gente tem que usar. Quando falta quatro, três mês, aí a gente usa esse remédio, prá ser feliz no parto.

– E faz com o que?

– Com erva do mato.

– Artemísia?

– Não, não é planta de casa. Só do mato.

– Qualque uma, ou tem que ser específica?

– Não, tem que ser classificada, não é qualquer uma.

– Isso os antigos conhecem, mas os novos...

– Eu, prá não dar recaída, eu dou é casca do mato. Eu dou um chazinho prá mulher quando ela recai, mas dá um suador!...

– E se não usar as plantas do mato, o que acontece, fica pior?

– Sim, mas tem gente que...

– ... faz sem planta?

– É...

– Não quer dizer nada. Então dá mais quando arruina?

– Sim.

– Quer dizer que muitos casos de placenta presa a senhora nunca teve?

– Nunca nunca. Graças a Deus, e nunca deu hemorragia, também. Agora, quando eu tava ali junto com a dona Guilhermina uma mulher ficou doente prá ganhar nenê e não tinha jeito, daí eu disse, isso é causo de médico, não é mais prá mim. Daí, nós levemo essa mulher, eu fiquei assistindo o parto que eles fizeram, tiveram que cortar a mulher, depois que nasceu a criança. Mas deu aquela hemorragia, hemorragia que não tinha mais o que chegasse. Eu acho que essa mulher, se eu não levasse ela pro hospital, pois ela ia morrer... O que nós ia fazer no posto prá ela? Lá eles tinha do que valer a ela, e não adiantava nada... Mas eles foram fazendo invenção, invenção, a cada minuto e minuto... Daí, ainda que deu prá defender ela.

– E por quê? Como é que foi esse parto?

– Bem, acho que ela focejou demais.

– Quer dizer que o parto que demora muito precisa desconfiar?

– É sim, não é coisa boa.

– Dois ou três dias, já tem que...

– É sim.

 

***

 

– Então, lá em Ronda Alta, isso já é fora, de manhã cedo veio um homem me buscar, já tinha me avisado, então eu já esperava, daí eu fui junto com ele, cheguei lá, examinei a mulher, daí eu disse esse caso é pro médico, toquem pro médico e bem ligeiro, eu disse, e eles levaram a mulher e ela morreu.

– O que é que ela tinha?

– Pressão alta. Atacou a cabeça antes de nascer a criança.

– Dava o que? Convulsão?

– É sim.

– E a senhora aprendeu isso de pressão alta onde? Só de olhar?

– Devarde.

– E a criança nasceu?

– Não nasceu. Ela morreu antes da criança nascer.

 

***

 

– Me diga uma coisa: prá sair o companheiro do nenê, a placenta, como a gente diz, precisa de alguma coisa especial, ou sai sozinho?

– Se a gente não sabendo atender, pois ele não sai sozinho...

– Como que é?

– Pois é, eu já te contei...

– Só pondo o dedo?

– É sim, mas tem que dar alguma coisa quente também, um chá quente, porque quando tá na hora de nascer a criança, eu já ponho o remédio lá em cima do fogão.

– E que remédio a senhora dá?

– É remédio do mato. É casca.

– Mas a gente lá na cidade já viu a placenta sair sozinha, direitinho, sem problemas. Sem fazer nada.

– Ah sim, eu tenho medo disso, Deus o livre, se escapa uma coisa dessas prá mim, sou capaz de correr o dia inteiro. Que é uma coisa matadeira!

– Se ficar um pedaço lá?

– Sim, mata prá já, se ficou. Porque ele vai pra baixo do estômago, vai pra baixo do coração, é um mal e tanto, tem que ter muito cuidado.

– Quer dizer que tem de fazer sempre aquele negócio com o dedo lá? Sempre?

– Hum hum. Sempre. Tem algum que sai junto com a criança, e não é preciso fazer nada. É só alguns que acontece isso.

– Não é todas? Demorou mais de dez minutos chega lá...

– É sim.

– Quer dizer que já em três horas tá feito o parto?

– É sim.

– Não demora mais que isto?

– Não.

– E mulher com mais filho, é mais rápido ainda?

– É sim. Mas hoje em dia, como é que essas mulheres que já tem meia dúzia de filhos e agora tem que fazer cesariana, como é isso?

– História, isso...

– Prá mim também é que eles querem que a mulher fique lá no hospital. Como é que tudo quanto é mulher que vai no hospital TEM que fazer cesariana? Um negócio muito... Nem sei o que eu ia dizer...

– Pode dizer, que eu também acho. Em cada cem mulheres, seis precisam fazer cesária.

– Nem seis não precisa...

– E o nenê nasce sem problema?

– Pois é.

 

***

 

– Comadre, se lembra do último teu filho? Tu não andava nos médico? Vivia nos médico! Até que ela ficou doente. E diz que os médico dizia que não era prá ela ganhar o filho em casa porque senão ela ia morrer. E um dia eu cheguei aqui de passeio daí eu sabia que eles disseram isso assim, daí eu disse que é melhor que ela vá no hospital, em todo caso vou lá ver ela que ela é minha comadre. Digo, vou ver ela então. Mas se der tempo ainda de ela ir no hospital, dá prá ela ir. Mas daí eu cheguei e examinei ela e já tava na hora, não dá mais tempo de ir eu digo, ela sai e vai ganhar na estrada, daí eu mesma atendi ela o médico dizia que ela ia morrer no parto, como é que ela tá aí, ó! E eu também, que o médico disse que eu ia morrer, pois é, porque dai eu fiquei bem doente, a minha vida era andar nos médicos, não por causa de mim, meu velho é que era assustado. Então daí que eles assustava mais ainda. Daí já tava nos dias de ganhar nenê. Daí disse, velho, eu vou vender duas juntas de boi prá nós ir no hospital. Daí entremos de acordo, vendemos, eu sei que nos vendemos mais coisas prá ter o dinheiro pro médico. E um dia de madrugada, então eu acordei, e fiquei pensando mas será que é verdade o que o médico diz, que eu vou morrer agora? Daí fiquei pensando, e naquilo me deu aquela dor bem forte e eu digo pronto! vou ficar doente! eu disse. Sem demora, meu velho se acordou também. Nesse tempo ele tinha um time dele que jogava prá fora. Ele tinha caminhão prá levar o pessoal fora. E dai ele se acordou, mexeu comigo assim, com o braço. Velha ele disse, será que você não vai ficar doente hoje? Eu digo, não, Deus o livre ficar doente hoje! Porque eu era convidado para um torneio hoje... Eu digo, meu velho, dá prá você ir, por que que não? Quando eu fico doente eu vou no hospital, eu disse prá ele. Daí ele entrou de acordo, já convidou o pessoal dele e se foram e eu já com as dor. Pois não é que eu não fui de sorte? Eu anoiteci. Ele foi de manhã às oito horas, quando eu vi já era sete e meia da noite e eu daquele jeito ainda. Só eu tinha as dor forte, ainda eu caminhava prá cá e prá lá. Quando eu vi o caminhão alumiou e desceu aqui e eu já tava bem doente. Daí ele decerto desembarcou do caminhão e foi lá prá cozinha e não me achou, foi pro quarto e não me achou, foi lá na sala e não me achou, e a mãe? ele disse prás crianças, a mãe tá por aí. Então daí, quando eu vi que ele chegou eu sai por essa porta, digo, vou passear por aí, pois não é que eu não ganhei a menina às oito e meia da noite!

– Levou onze horas, levou tempo!

– Levei tempo. Eu pensei que eu ia ganhar a criança antes dele chegar, por isso que eu não quis contar prá ele que eu já tava doente. Eu queria polpar aquele dinheiro. Daí quando a menina nasceu, que já tava dentro de casa, a menina tudo bem, eu digo: me passa aquele dinheiro que era do médico, agora! Quero passar do bom e do melhor, pois eu poupei aquele dinheiro, né.

– Por que a senhora acha que os médicos fazem tantas cesarianas?

– Prá ganharem mais, porque daí ela fica no hospital né, e se a gente ganha a criança no normal, no outro dia a gente já tá bom, já dá prá ir trabalhar.

– É?

– Estraga as mulher, coitada das mulher, também não tem coragem em vez de fazer força... não deixar cortar...

– Me diga uma coisa: por que a senhora acha que as mulheres dos brancos têm os filhos deitadas?

– Decerto a coragem não dá... decerto se acostumaram daquele jeito... e quem sabe, lá as antigas, as primeira parteiras2 quem sabe foram elas que inventaram isso... Nós não. E é em toda a parte. Andei em Nonoai, andei em Guarita, e é tudo dessa minha maneira. Porque, as vez vou passear, e as vez de noite, fica doente uma mulher, eles sabem que eu entendo, e daí eles mandam me buscar. Eu vou lá, ajudar.

– A senhora às vezes diz: "... quando a mulher fica doente..." A senhora acha que o parto é doença? Fica doente mesmo, ou é modo de falar?

– As vez dois, três dias antes, dá aquela dor, e depois passa, então depois leva três ou quatro dias ainda.

– Mas em caigangue, como é fala quando diz doente? Quer dizer que vai ficar doente, prá morrer a gente fica doente. Agora, prá ter filho a gente não fica doente, tem filho. E em caigangue, a gente fala que fica doente ou é outro jeito?

– Não, é a mesma coisa. Ele diz: (... ... ... caigangue), então quando ele diz assim eu já sei o que ele tá dizendo.

– E o que significa?

– Que a mulher dele tá doente.

– E é doente prá ter filho, ou tudo quanto é doença é a mesma coisa?

– É tudo igual.

 

***

 

– Taí essa mulher. Então, a casa dela era lá onde tá aquela casa na sombra, daí um dia de manhã cedo o marido dela veio me buscar. Ele disse, olha comadre, tua comadre tá doente. Mas fazia poucos dias que ela tava grávida, eu sabia que não era do tempo. Daí eu disse: não é tempo ainda, compadre. E ele disse, eu também acho. Daí eu fui na casa ela, e ela não tava nem na cama dela. E daí eu andei lá prá dentro da casa ver se achava ela e fui achar ela lá embaixo daquelas árvores, lá deitada gemendo. Aquela dor. Daí eu disse: comadre, se tu tá doente, por que ficar aqui? Ela disse, mas comadre, eu tô mal. Eu disse não é pra ganhar filho mesmo.Ela disse é. Daí eu mandei ela deitar de costas, apalpei a criança, a criança tava fora do lugar, daí eu endireitei a criança bem direitinho, levei ela na cama dela, e disse agora tu fique deitada até amanhã. Quando eu cheguei em casa, peguei a minha chaleira e a minha cuia, e fui tomar mate no corredor, ela já ia indo com a trouxa de roupa pro rio e nunca mais deu aquilo nela, quando chegou o tempo dela ficar doente sarou a mulher.

– E como é que você fez para endireitar a criança?

– A gente aparpa, ver se tá direito.

– Tem que estar de cabeça prá baixo?

– Não pode ficar de cabeça prá baixo.

– Nunca?

– Nunca.

– Só na hora de nascer?

– Só na hora de nascer. Quando ele se vira de bruço, onde a gente fica doente, quando ele vem no parto.

– Antes, como é que a senhora acha que ele está?

– Eu sei como é que ele está, mas eu não vou te contar agora...

–Por que não?

–Eu tenho um livro aí, eu tenho todos os livros aí, então a gente se pratica com aquilo, né.

– Livro de medicina?

– Sim.

– Quer dizer que estudou o parto nos livros?

– Sim, eu não quis estudar, mas o meu velho, sabe, então explica pra mim o que que é prá fazer, diz que não é prá deixar uma mulher presa quando ela já tá doente prá ganhar nenê. Assim diz no livro. Diz que é prá deixar ela à vontade. Pode fazer relaxamento como ela quer. E tem que deixar.

 

***

 

– Então, eu também dava remédio para mulher que não ganha filho. Então, eu tinha uma prima minha que tinha 43 anos e nunca teve filho. Então, nasceu uma menina minha, então ela queria aquela menina minha, porque ela me ajudou a criar todos os meus filhos. Então ela disse, prima, eu já ajudei a criar os teus filhos, agora essa vai ser minha. Eu digo, não prima, deixa que eu saia da minha dieta e então eu vou te fazer um tratamento. Tá, ela disse. Quando fazia vinte dias que eu estava de dieta, daí eu fui lá na casa dela, mandei ela se aprotar, digo, tu faz assim e assim, deixa o teu serviço que é mais necessário pronto, porque tu vai ficar quinze dias fechada no quarto mas fechada mesmo. Fui lá e fiz aqueles remédios prá ela, e deixei ela presa lá. Ela não aguentou quinze dias, nos onze dias ela saiu, mas no outro mês ela não viu mais nada, já tava grávida. E com 43 anos, o parto como é que tá daí? Ali precisa de um que entenda, porque mulher nova o parto é mais fácil, mas de gente velha que nunca teve filho os ossos não dá mais de si, mas essa mulher sofreu sofreu, ela não teve sorte, ganhou um guri e ela queria menina, né. Meu Deus essa mulher me deu um trabalho! Desgraçada, ela me agarrava, foi tu que é a culpada, que me fez eu ficar assim, prá mim tá sofrendo agora, eu vou morrer, por tua culpa, se não fosse você eu não tava sofrendo hoje, ela levantava e pulava em cima de mim, mas eu não fazia conta dela, mas essa sim! Meu Deus! Mas foi parto normal, nem foi preciso levar no médico.

 

***

 

– Eu tava contando aqui prás mulher: então, aqui, esses colonos no tempo que havia mato, as vez quando os galo tava cantando, ali pelas quatro da madrugada, chuva que Deus mandava, e chegava gente me buscar; óia, nós saia quebrando as taquara, e eu ia só pelo vulto dele a cavalo. Uma parteira também periga, não é bem assim. As vez, quando está chovendo, geada que tá caindo e a gente tem que levantar e atender. Por que a gente quis, né? Sim, porque branco a gente não tem muita obrigação...

***

 

– Então uma vez entrou um chefe aqui, José Esteves, decerto conhece ele...

– Só de nome.

– Então daí, de madrugada ele foi me buscar de jipe, dona Joana, levanta, tem uma mulher doente ali, uma índia, e prá ganhar nenê. Daí, eu embarquei com ele e se fumo; era uma estradinha pequena, pois ele metia o jipe no meio daquele mato, fumo quebrando o mato, chegemo lá e examinei a mulher, tava na hora de nascer e não é que nasce gêmeos? Tão aí os gêmeos. Já são grandes. Foi um salto só. Quando teminou de nascer um, o outro já vinha vindo atrás dele.

– E esses partos sentados?3

– Mas esses sim, é brabo. Acho que só com médico mesmo. Mas assim mesmo, eu já defendi uma mulher ainda. Olha, eu examinava aquela mulher e nada de cabecinha da criança e já fazia cinco dias que essa mulher tava doente. E eu dizia, levem essa mulher pro hospital, vão no hospital, e o marido dela nem conta não fazia. Dito, mandei dizer pro chefe também que viesse buscar aquela mulher porque ela ia morrer. Daí, um dia de noite, eles vieram me buscar outra vez. Era só eu que caminhava, prá lá e prá cá. Cheguei lá, examinei ela, só encontrei uma coisa, mas uma coisa estranha, não era a cabeça da criança. Daí eu penso que que pode ser? Até que fui apalpando e peguei um pezinho. Mas nós fora de recurso, não tinha estrada prá entrar de carro, meu Deus, e agora, o que fazer? Digo, seja como Deus quiser. Pois olha, fui lutando, lutando com ela até que peguei as duas perninhas. Daí, devagarzinho, fui ajeitando, ajeitando, até que os pezinho veio prá fora. Daí eu peguei uma toalha, botei nos pezinho dele, devagarzinho fui forcejando, botava meus dedo, levantava o bracinho dele pra cima até que os cotovelo ficaram tudo assim, ó. Daí, devagarzinho, fui puxando, até que nasceu a criança, um baita dum guri.

– Nasceu de croque?

– Nasceu de croque.

– E não tem perigo de arrebentar o cordão, assim?

– Não, quando veio, veio tudo também.

– E a cabeça, não fica presa lá dentro?

– Fica sim. Fica presa. A gente manda ela forcejar e a gente fica ajudando. Pois olha: nasce. Um só eu encontrei, assim. Nunca mais. E gêmeos também, uma vez só eu encontrei, que são esses guri que eu te contei.

– Você sabe que na cidade dá muita criança boba por causa do parto? Porque demora muito, porque ficou lá dentro, não respira, fica meio abobada. Aqui tem muita criança assim?

– Não, nenhuma.

– Tudo é gente são?

– É.

– E morre muita criança depois do parto?

– Não. É muito custoso.

– Morre depois de grandinho, diarréia, ar4, essas coisas?

– É sim, depois de grandinho. Mas aqui quase não morre. É custoso, graças a Deus.

– E as posições prá ficar de croque? Fica no croque, ou fica de cócoras? Porque croque é aquele pauzinho, não é?...

– É sim.

– ... prá ficar sentada em cima?

– De croque então, do jeito que conta, tem um banquinho, baixinho, que dê prá mulher ir sentando quando passa aquela dor então quando chega aquela hora, então aí sim...

– ... fica no coque?

– É sim.

– Traseiro no ar?

– Sim.

– Prá não ficar encostado no chão.

– Sim.

– E fica com o pé inteiro ou só a ponta do pé no chão?

– Na hora do apuro, ela fica só em cima dos dedos. Naquela hora, pensa que a coisa é fácil? O senhor é homem, não sabe o que é...

– Ah, mas eu já vi, já vi bastante...

– Viu, mas a dor tu não sentiu!

– Não.

– Ah! ah! ah! ah!...

– Parece que com o pé inteiro fica mais firme...

– Não, tem que ficar na ponta dos dedos. Mas eu já tou te contando. Não precisa fazer mulher nenhuma forcejar devarde, só vai botando as mãos na testa dela, quando apontar o suor dela, pode contar que a hora já chegou. Então, eu espero só aquilo, bota a mulhe, na cama, se ela quer ficar deitada, e eu vou tomado meu mate e fumando meu cigarro. Só de vez em quando tenho que ir lá, ver se já chegou essa hora ou não. A dona Guilhermina aprendeu comigo esse ponto, quando cheguei ela não entendia nada, ela é lá do Ligeiro, pode perguntar prá ela quantos partos eu fiz lá...

– E a mulher dá de mamar pro nenê logo que nasce ou não?

– No nosso sistema, nós, índios, quando nasce a criança, pois ele já nasceu prá mamar. Então eu já vou dar de mamar. E nunca aconteceu nada. Como é que quando levei essa minha nora pro hospital, deixaram o meu neto 24 horas sem mamar!

– Quase mataram de fome...

– Quase que matam o guri de fome. Sabe o que eles fizeram? Levei a minha nora pro hospital porque vi que ela não ia ter nenê porque faltava força prá ela. E eles vá fuçar e vá fuçar e nada! Eu dizia, bota soro prá essa mulher, prá dar mais coragem prá essa mulher! Dêem soro prá essa mulher! E eles nem conta não faziam. De repente, entrou uns médico e eu disse, se a minha nora tivesse força, ela ganhava mesmo lá em casa, mas eu trouxe ela só prá vocês botar soro nela, e eu tou dizendo prás parteiras, elas não fazem conta. Que que vocês tão fazendo?! Dê soro prá essa mulher! Ela não chegou a tomar nem a metade do soro, já nasceu a criança. Viu? os médicos disse prá parteira, a índia entende mais que vocês.

***

 

– Então dá sempre de mamar pro nenê, no que nasce?

– Sempre sempre.

– Mesmo quando o nenê tá meio arroxeado?

– Que que tu quer dizer?

– Nunca nasce nenê que demora prá chorar?

– Quando a criança nasce assim, que não chora, eu pego ele pelas duas perninhas e dou tapa na bunda, tapa na bunda, até que ele chore! Eu tenho que surrar aquela criança! Mas fica bem apanhado! Por que ele tem que chorar, pois criança que não chora pois ele fica com toda aquela sujeira no estômago!

– Mas quando nasce de croque, de cabeça prá baixo, já não limpa tudo na hora que tá nascendo?

– Não, por que que a gente tá de companheira? a gente tem de torcer a cabeça pro lado. Tem que cuidar mais é a boquinha da criança.

– Ficar de lado?

– É sim.

– Nunca pro lado nem...

– É, ali é mais fácil, ele já nasce com a boca prá baixo como é ele vai chupar sujeira?

– Por isso é que estou perguntando. Ele nasce com a boca prá baixo, em geral é difícil entrar sujeira. Apertadinho.

– É sim.

– Não respira, vai respirar na hora que tá nascendo.

– É sim.

– Não tem como entrar sujeira. E entra sujeira?

– Como é que pode, também, pois deitada é pior!

– Ah não, deitada nós sabemos.

– Sim, pois é...

– Deitada, o que a senhora acha que acontece?

– Sim, porque aquela sujeira que vem junto vai tudo na criança. As vez tem mulher que tem bastante água... afoga até a criança... poque eu já assisti um parto, pois olha, antes de nascer a criança aquilo chegou a lavar, de tanto que tinha água foi mesmo que despejasse um balde d'água! Um parto só, desses, também. De cada coisa eu vi um. Mas, se não tivesse mulher aqui eu tenho tanta coisa prá contar!... mas é que tem mulher grávida aqui...

– Fica assustada, é?

– É sim.

– Então, acha que tem que chorar sempre?

– Tem que fazer chorar bastante.

– Mas, por que fazer chorar? Já que nasce começa a levar porradas?!

– Ah! ah! ah! ah! Pois é, por que não quis chorar então? Tem que surrar! Mas aquele que chora bastante! Eu deixo chorar à vontade. É bom, fortalece os pulmão dele. Então, um dia nasceu um nenê. Tava morto, bem mortinho. A mãe disse Joãozinho Menezes, nós duas era parteira. Então, fomos assistir um parto. A criança nasceu bem mortinha mortinha, e as perninha dele até ficaram assim. E a mulher também não foi muito bem, ou que ela se assuntou ao ver a criança daquele jeito. Mas aquela criança apanhou, apanhou, também não tinha mais jeito de voltar. Daí eu larguei aquela criança lá em cima da cama e a dona Rosa chega também. Ela foi lá, pegou a criança, pois ela fez a criança viver, de tanto que ela apanhou. Está aí, grande, pois se nós deixasse, tinha morrido, pois não tinha mais nem fôlego.

 

***

 

– E os bichos, como é que tem filho? Vocês que ficam vendo os bichos?

– Pois esses, eu nunca vi.

– Nunca viu? Macaco, não?

– Não, pois eu não andei junto com eles, ah! ah! ah!

– Mas com as patas pro ar é só as mulher do branco?

– É sim.

 

***

 

– Então, isso foi depois que eu vim de Santa Rosa, fiquemo cinco ano prá lá, depois eles tornaram a recolher nós, daí eu entrei no mesmo serviço, atender parto. Então morava um sobrinho meu prá lá desse morro aí, daí ele chegou, tia, ele disse, vim te buscar, minha mulher tá passando mal, ele dizia. E daí eu fui junto com ele, cheguei lá bem cansada. Quando cheguei lá o nenê já tinha nascido. E a mulher dele é cabocla. Já tinha nascido a criança, só que foi eu que cortei o imbigo da criança. Mas eu vi que a coisa não tava boa. Olha! era uma menina, e a menina tava só com a metade da cabeça (cochicho). Essa parte aqui já tinha comido tudo. Aparecia até os miolo...

– E por que isso?

– ... tinha só um velzinho por cima do miolo. As vistas, também já tinha alcançado. Meu Deus, eu só arrumei a mulher, e enleei a criança e levei no médico, primeiro eu cheguei aqui, nessa vila...

– Mas nasceu assim já?

– Nasceu já assim. Cheguei primeiro na igreja, mandei batizar a criança, até fui eu mesma que servi de madrinha. Depois que eu mandei batizar, daí eu levei no médico. O médico consultou ela um pouquinho, ele disse, dona Joana, volte com essa criança, ela não vai demorar nem meia hora. Com o mesmo toque que eu fui eu voltei com o mesmo toque. E quando eu cheguei em casa, tempo de quinze minutos e se foi a criança. Mas, sabe por quê? Porque as mulheres tem aquela ferida por dentro, e não se cura, mas essa mulher vivia nos médico, ela morava nos médico assim mesmo os médico não mataram aquela ferida. Daí, aquela criança foi se criando em cima daquela ferida, em vez de comer a mãe foi comendo a criança, então. Escute bem o que eu estou te dizendo. Então daí, nasceu essa criança, assim, mas a coisa mais feia, Deus que me perdoe. E morreu, a criança. Depois, lá em Ligeiro, nasceu um também. Até a criança também era filha duma sobrinha minha. A criança nasceu e não era gente aquilo. E daí eu vi que não dava, e tava só eu, daí eu primeiro cortei o imbigo e enleei bem, deixei lá em cima da cama. A criança daí então morreu esvaída, terminou o sangue daí morreu.

– Era esquisito mesmo!

– Bem esquisito! A gente que é parteira vê tanta coisa! E isso já faz sete anos. Depois, daí eu mandei chamar o chefe do posto, daí ele veio, mostrei prá ele, bem que a senhora fez, dona Joana, ele ainda me batia no ombro, qual a mãe que vai dar de mamar pruma criança dessa? E não mostre pra mãe, ele me disse. Daí nem mostremo. Só contei que a criança nasceu muito ruim, eu contei.

– É...

 

***

 

– E doença braba, dessa doença que nós estamos examinando, esse tal de câncer, nos brancos dá que não acaba mais.

– Eu morava fora da área, faz quatro meses só que tou aqui que voltei prá cá. Os brancos, até de São Paulo, vinha buscar remédio lá em casa. Quando eles se via perdido, que não tinha mais cura, daí eles corria lá em casa, eu ainda dava volta. E só com remédio do mato: raiz, folha, casca... Tem bastante remédio, eu graças a Deus nunca levei um filho meu no hospital, os meus filho não conhece o que é médico, que quando eles ficam doente eu já sei o que que vou dar.

– E já ensinou tudo isso prá alguém?

– Sim, muita gente já sabe.

– Os filhos?

– Também, tudo isso. Nem que eu não tou, chega uma pessoa, diz quero um remédio prá tal doença, pois eles fazem tudo certinho. Se uma pessoa tem uma ferida por dentro, se ele toma meia chícara de remédio, dá uma reação nele, parece que já vai morrer. Mas é porque arde aquela ferida, né. Então, um dia, eu não tava em casa, e chega um homem de idade, e diz que queixou prá menina o que ele tinha, daí a menina diz que foi na cozinha, fez o remédio prá ele, deu um litro de remédio prá ele, que era meia chícara três vezes por dia, uma de manhã, outra meio dia e outra de tarde. Diz que ele levou prá casa, mandou a mulher dele dar o remédio prá ele. Tomou aquela primeira dose, mas diz que ficou mal mal, daí diz que correu pro quarto e diz que se deitou. Mulher do céu, será que eu vou morrer agora?? Eu que fui procurar a minha morte! E depois, foi uma menina que me deu o remédio, diz que ele disse, deceto essa menina me deu veneno. A mulher disse que mandou buscar um taxi, mas  depois, diz que ele disse ha também, se eu tenho que morrer que morra, me traz mais meia chícara, diz que ele disse prá mulher. Mas olha nos três dias ele chegou lá em casa, mas esse homem contava, e dava risada, e também diz que termimou aquela doença dele. Daí ele veio buscar mais remédio.

– O que que ele tinha?

– Ele tinha úlcera no estômago.

– Curou mesmo?

– Cura sim. Lá em Guarita, quando eu morava lá, em Ronda Alta, as funcionárias me escrevia prá mim, que quando fosse lá, que levasse bastante remédio prá elas. Então eu levava remédio. Não foi em Guarita ainda?

– Só pra arrumar lá.

– Então, tem uma funcionária miudinha, fazia seis anos que ela era casada e não tinha filho, e um dia ela mandou me buscar. Agora diz que tem um guri.

– Tratou ela, como?

– Eu faço um tratamento.

– Sempre igual?

– Sim.

– E tudo pega filhos ou só algumas?

– Não, tudo. Ela é bem miudinha, uma italiana. Viu como italiano também tem fé nos remédios de índio. Cheguei lá, fiz o tratamento prá ela, e também diz que foi prá já.

 

***

 

– Nós vamos prá Ligeiro, daqui a pouco. Trabalhar lá.

– Lá tem bastante gente, Deus o livre, lá vão cansar. De onde vocês vieram?

– De Curitiba. Longe, né?

– Longe, minha filha foi prá... prá onde ela foi?...

 

***

 

– Quer uma água?

– Não.

– Chimarrão, não toma?

– Eu tomo. Chimarrão, lá em casa, não me falta.

 

***

 

– Eu quero ir no hospital ainda. Quero assistir uns quantos partos ainda, quando eles inventar isso.

– Te mostro umas fotografias agora. Quer ver?

– Quero sim. É ruim de olhar, ainda mais eu, que já enxergo pouco...

– Mas olha só. Está vendo? Ela está sentada como se estivesse de croque.

– Sei.

– Isto é uma cama prá ela deitar, se quiser. Aqui está escuro, prá imitar a casa de vocês, que é escura.

– E tem um ali, cuidado...

– Sou eu.

– É. Esse de azul? Tem que ser assim? Está certo assim?

– Tá sim.

– É escura a sala.

– Parto índio.

– Ah, é?

– É. Eu já mostrei pros médicos.

– E o que eles acham?

– Já aprovaram.

– Ih, o parto mais fácil é este. Quem é que contou prá vocês que assim é mais fácil?

– Essas são índias do Paraguai. Já ouviu falar do Paraguai?

– Já, sim.

– Elas tem filho de joelho. Já viu parto de joelho?

– Sim.

–É igual ou melhor?

– É igual, tudo igual.

– Só que fica com o joelho no chão.

– É sim. Só que fica muito baixo. Machuca a criança.

– Baixo demais, né? Tem que por a mão aqui por baixo.

– Essa porque ela não se apertou muito ainda. Quando dá a dor forte nela, daí ela se arruma.

 

***

 

– Olha, deitada, como é estranho...

– Nossa, isto é que é horrível. Olha, do jeito que vocês tão fazendo agora, não vai mais ser preciso as mulher fazer cesariana... Ela tá com as mãos aqui? Onde é que está as mãos dela? Ela tem que segurar aqui, ó. Ela tem que passar as mãos no meio das pernas, daí ela segura os quato dela com as duas mãos, aqui assim ó, eu é que vou explicar prá vocês como é que é. Ela tem que ficar assim, ó. Assim, ó. Ela tem que firmar as pernas dela.

– Daí não precisa segurar na cama nem nada...

– As veis também precisa. Essa aí, ainda vai demorar prá ela ganhar o nenê?

– Essa daí demorou ainda um pouco.

– Claro que demorou.

– Como é que sabe?

– Eu sei pelo jeito dela, ah ah! ah! Essa ainda demorou prá ganhar o nenê.

 

***

 

– Esse é o sistema indígena. Viu? Já não sou tão burro!

– E daí, quando elas já tão doentes, o que o senhor faz?

– Deixamos passear à vontade, só controlando.

– E não faz fumentação nenhuma?

– Nenhuma.

– Os índios, tem que fumentar.

– E com que que vocês fumentam?

– Com azeite, banha de galinha...

– Ferve embaixo?

– Não, só esquenta ela assim, no fogão. Quando tiver bem quente, que de prá mão aguentar, despeja um pouquinho na mão e esfrega. Tem que indireitar a criança, deixar ele reto.

– Por que nos lá achamos que o nenê fica direito sozinho.

– Não, tudo que vou ajudar, então daí eu chego, a primeira coisa que eu faço é indireitar a criança.

– Se você quize chegar lá, pra ver, vai lá. Tem casa e comida.

– Se for por comida, eu fico comendo em casa...

– Ora, vai passear... vai ver a sala, como que é...

– Isso você nunca viu na tua vida!

– Sim, eu tenho visto, né...

– Sala assim?! Nunca! E branco fazendo isso?! Isto tudo é branca, tudo é colono polonês, italiano. Você nunca pôs uma italiana de croque, pôs?

– Não.

– Eu já. E já fiz parto de índia. Lá em Mangueirinha...

– Veja, eu já fiz parto de tudo quanto é nação, mas...

– ... e não pus a índia deitada. Pus de croque. E já fiz parto de croque em nenê que nasceu sentado. Três.

– Três?!

– É só fazer assim. Ele nasce bem. E já tive caso da placenta ficar lá dentro, ficar parada lá. É isso que eu tava te perguntando, como é que faz, prá descolar a placenta.

– É porque esfriou o lugar, então por isso que acontece isso.

– Ah, se esfriou o chão...

– Não...

– O corpo?

– É sim. O lugar da criança.

 

***

 

1 Placenta.

2 Parto deitado; iniciou-se em 1738, com Mauriceau, médico de uma rainha. Na Alemanha, até então, era considerado má prática médica deitar-se em primigesta.

3 Feto em posição pélvica.

4 Tétano.