CAPÍTULOS DO LIVRO

A Arte de Accoucher

  • Posted on: 23 October 2018
  • By: claudio

Na França, até o começo do século XVII, a arte de "accoucher" (dar à luz) foi exercida por mulheres.

Com a nobreza e a vida cortesã, surge a figura do obstetra.

Foi no reinado de Luiz XIV que o cirurgião Julien Clement foi chamado para atender a Madame de la Vallière (1663). O rei queria assistir ao nascimento do delfim. Para isso, a mãe foi deitada e coberta de panos, possibilitando a visão do nascimento.

As damas da corte imitaram a "Maitrèsse" (ama) do rei, que, por sua vez, foram imitadas por outras.

Então surge a figura do "accoucheur" (parteiro). As parteiras, no entanto, chamadas "sage-femme" (mulher sábia), continuaram a fazer os partos do povo e a controlar as maternidades. 

Nesse cenário, os partos eram feitos em cadeiras obstétricas, que deram lugar aos leitos de trabalho - cadeiras que podiam ficar em diferentes posições.

                                                   

Com a entrada do médico e seu saber deslocando o "Parto femina est", começam as discussões acadêmicas.

Mauriceau (1638-1709), médico francês que legou uma manobra obstétrica com seu nome, recomendou a abolição do leito de trabalho em favor do leito da paciente, alegando o incômodo de a mulher, cansada do parto, ter que ser transportada. Em contrapartida,  Dionísio - outro luminar da época - retrucou que esse ligeiro incômodo não deveria se sobrepor às 20 comodidades que a mulher tem ao parir sobre um leito de trabalho. Mauriceau era favorável à sangria: "É uma prática indispensável, e se elas partem em viagem, devem se fazer sangrar o braço alguns dias antes, se querem conservar sua gestação". A explicação da época era que o feto, em seus primeiros tempos, não poderia consumir o excesso de sangue.

Também interditava o coito nos dois últimos meses de gravidez, ao que Dionísio também vai refutar: "Mauriceau não pode haver feito suas observações por si mesmo, pois jamais teve um filho em 46 anos de casamento. Por mim, que tenho uma mulher que esteve grávida por vinte vezes e que me deu vinte crianças com partos felizes, estou persuadido de que as carícias do marido não atrapalham em nada".

O pacto entre a facilidade médica e a comodidade da nobreza estava firmado.

A higiene continuava precária e a mortalidade era elevada: morria uma mulher a cada trinta partos.