Levantamento Realizado nas Reservas Indígenas do Sul do Brasil - Kaigang, Guarani e Xokleng (1973 a 1978)

  • Posted on: 29 October 2018
  • By: claudio

Levantamento Realizado nas Reservas Indígenas do Sul do Brasil - Kaigang, Guarani e Xokleng

1973 a 1978

Casos de Câncer

Em relação à comparação entre os casos de câncer em índias das Reservas Kaigang, Guarani e Xokling (1973-78) com as de Xanxerê (1973) (Tabela 1) verifica-se que as de Xanxerê apresentaram um percentual bem superior às demais (2,52% x 0,30%), mas sem diferença significativa, demonstrando haver uma tendência (p=0,072) (Gráfico 1).

Os dados foram coletados a partir das perguntas prévias aos exames que fazíamos para a coleta de citologias no trabalho de prevenção de câncer ginecológico, iniciado em 1973 na reserva de Chapecó, Santa Catarina, e estendido para os estados do Paraná e Rio Grande do Sul.

Trabalhamos com vários médicos mais as equipes locais  nos ambulatórios das reservas, até com um médico e uma assistente, à luz de lampião, em lugares improvisados, como na área guarani em Mangueirinha, às margens do rio Iguaçu. Em alguns grupos persiste a língua materna, sendo a portuguesa exceção.

Pela distribuição da faixa etária, observa-se que a distribuição das faixas é homogênea, não demonstrando diferença significativa (c2calc=8,11; p=0,088) (Gráfico 1).

Em relação à instrução, observa-se, que as índias apresentam maior índice de analfabetismo (49,4%) (c2calc=8,11; p=0,088) em relação à língua portuguesa e são as únicas a preservarem a instrução de origem (Kaingang - 6,3%) (Gráfico 2).

O estado civil das entrevistadas apresentado no Gráfico 3, demonstra não haver diferença significativa entre os grupos (c2calc=9,27; p=0,055), apenas uma pequena tendência às índias casadas.

As mestiças apresentam situação econômica mais precária (85,7%) do que as índias e as brancas (c2calc=85,73; p<0,0001), como pode ser observado no Gráfico 4.

A atividade profissional (profissão) mais relatada pelas entrevistadas foi à agricultura (60,2%), sendo que as mestiças (83,3%) (c2calc=20,81; p<0,0001), que apresentam maior significância estatística, e as índias (60,3%) as que mais mantém o vínculo com a terra, principalmente para sua subsistência (Gráfico 5).

Os maridos e/ou companheiros também apresentam atividade profissional (profissão) voltada à agricultura (88,3%), sendo as índias (92,1%) (c2calc=36,56; p<0,0001) as que apresentam maior significância estatística, seguida de perto das mestiças (91,5%) (Gráfico 6).

Em relação à história obstétrica, observa-se que as índias apresentam diferença significativa, ou seja, um número maior de gestações (5,1/índia) e consequentemente um número maior de filhos vivos (3,1/índia) e filhos mortos (1,6/índia) quando comparada com as mestiças e com as brancas (c2calc=46,93; p<0,0001) (Gráfico 7).

Nas entrevistadas que relataram a causa da morte do filho constata-se um índice relativamente alto de mortalidade por sarampo (21,1%) seguida de doença (20,3%), provavelmente de doença infantil (Tabela 4).

Observa-se a importância do papel da parteira índia, sendo que em 41,5% dos casos relatados, ela esteve presente. 9,8% as índias tiveram seus filhos sem ajuda  (Tabela 5).

O principal motivo que leva a entrevistada à consulta é por intermédio de propaganda (54,6%), sendo claramente observado isso nas mestiças (89,5%) (c2calc=29,01; p<0,0001) enquanto que a índia vai por vontade própria (23,1%) ou a mando do chefe (25,9%) (Gráfico 8). A maioria se mantém calma na consulta (86,5%) não encontrando diferença significativa entre as entrevistadas e as atitudes (c2calc=6,17; p=0,187) (Gráfico 9).

Relatam que sentem dor (76,3%) (c2calc=7,26; p=0,0265), que não tem perda de sangue (75,6%) (c2calc=7,99; p=0,0184), não tem câncer na família (82,9%) (c2calc=10,39; p=0,0055) e também não foram operadas (78,6%) (c2calc=9,03; p=0,0110).

O local onde sentem dor mais relatado pelas entrevistadas foi a barriga (31,4%) seguido do ovário/útero/vagina (22,8%) (Tabela 6).

O tipo de operação mais relatado pelas entrevistadas foi de apêndice (36,8%), seguida de ovário/trompa/útero (29,8%) (Tabela 7).

Em relação à avaliação clínica realizada nas entrevistadas (Quadro 4) foi constatado: ausência de prurido (59,8%), principalmente nas mestiças (c2calc=7,71; p=0,0212); presença de corrimento nas brancas (70,7%) (c2calc=13,42; p=0,0012); Papanicolau de grau II nas índias (97,3%) (c2calc=12,65; p=0,0018) e vagina normal nas mestiças (80,0%) (c2calc=8,58; p=0,0137).

O parto de cócoras é o que apresenta maior índice de períneo íntegro (132/181=72,9%) em relação aos outros tipos de partos.